sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Carro colaborativo já é uma realidade | Portal HSM

Um texto do Portal HSM interessante sobre o conceito de "Inovação Aberta"

Carro colaborativo já é uma realidade | Portal HSM


Américo Ramos é Doutor em Administração, com vinte anos de experiência profissional e acadêmica .
E-mail: americodacostaramos@gmail.com.
Visite o blog “Aprendizagem e Organização” (http:www.aprendizagemeorganizacao.com)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Apresentação no 9º Encontro de Aprimoramento do Processo de Certificações

Em março apresentei uma palestra no 9º Encontro de Aprimoramento do Processo de Certificações, organizado pela ABNT/CB-25 (Qualidade) e INMETRO.

O evento foi realizado nos dias 22 e 23 de março de 2010, no Stanplaza Hotel, São Paulo, SP. Para este Encontro, atém dos temas relativos à certificação de sistemas de gestão foram incorporados outros temas relacionados à certificação de produtos, pessoas, etc Para isto foram convidados para participar deste Encontro, representantes das seguintes organizações:
  • Comissão Permanente de Credibilidade do CBAC
  • Organização que acredita organismos de certificação
  • Organização que elabora as normas de sistemas de gestão da qualidade e ambiental, de auditoria de sistema de gestão e qualificação de pessoas – ABNT/CB-25 e ABNT/CB-38
  • Organizações de treinamento que fornecem curso de Auditor Líder reconhecidas pelo Inmetro
  • Organizações que certificam sistemas de gestão
  • Organizações com sistemas de gestão da qualidade certificados
  • Organização responsável pela certificação e registro de auditores no Brasil
  • Outras organizações relacionadas com a qualidade
Foram convidados para proferirem palestras:
  • João Rufino Teles Filho – ABENDI
  • Reynaldo Galvão Antunes – Secretário do ABNT/CB-38
  • Álvaro Thiessen – Laboratório de ensaios
  • Américo da Costa R. Filho - Petrobrás
Este Encontro teve como “facilitador“ o Dr. Nigel Croft e obedeceu a seguinte dinâmica:

a) Introdução do Diretor da Qualidade do Inmetro – Sr. Alfredo Lobo

b) apresentação do Sr. Américo Ramos
c) apresentação do Sr. Guy Ladvocat

d) apresentação da Sra. Daniela Gerevini – Instituto Falcão Bauer da Qualidade

e) apresentação do Sr. Álvaro Thiessen – Laboratório Acreditado

f) apresentação do Sr. Aldoney Costa - Inmetro

g) apresentação dos resultados da pesquisa sobre a Imagem do Inmetro junto à população brasileira – Sr. Silvio Ghelman

h) apresentação do Sr. João Rufino Teles Filho – ABENDI
i) apresentação do Sr. Marco Aurélio – Inmetro

j) apresentação do Sr. Paulo Coscareli – Diretor Substituto da Diretoria da Qualidade – Inmetro
k) apresentação do Sr. Masao Ito – ABROC
l) apresentação do Sr. Alfredo Lobo – Diretor da Qualidade do Inmetro
m) apresentação do Sr. Reynaldo Antunes – ABNT/CB-38
n) apresentações do Sr. Nigel Croft – Consultor

o) Encerramento


O relatório do evento encontra-se aqui.

O trabalho que apresentei foi intitulado “O Global e o Contextual no aprendizado gerencial de multinacionais: uma perspectiva brasileira”. A apresentação encontra-se aqui.

Quero aproveitar para mais uma vez agradecer ao Sr. Alfredo Lobo, Diretor da Qualidade do INMETRO, pelo convite e oportunidade de compartilhamento, assim como aos demais organizadores do evento.

Américo Ramos é Doutor em Administração, com vinte anos de experiência profissional e acadêmica .E-mail: americodacostaramos@gmail.com. Visite o blog “Aprendizagem e Organização” (http:www.aprendizagemeorganizacao.com).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Virtudes Cardinais na Gestão Organizacional

Américo Ramos





As Quatro Virtudes Cardinais: Temperança, Prudência, Fortaleza e Justiça

http://amadodedeus.files.wordpress.com/2008/10/virtudes.jpg

Dentro dos estudos filosóficos, teológicos, ou em última instância, humanistas, há muito tempo se faz menção a vícios e virtudes. Vou aqui enfatizar as virtudes, mais especificamente as chamadas “quatro virtudes cardinais”, polarizadoras das demais virtudes, já citadas por inúmeros pensadores, como Platão, Aristóteles e alguns doutos do cristianismo como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. Tomarei um pouco mais como base a referência platônica, conforme sua obra “A República”. Pode ser feita ampla pesquisa sobre o assunto, a seguir deixo três páginas a respeito, as duas primeiras do professor português de Direito Paulo Ferreira da Cunha (aqui e aqui) e a outra, o sítio "Argonautas".

Começo com a Phronesis, palavra grega que tem sido traduzida como prudência (phroneo=compreender), mas pode ser mais bem traduzida como sabedoria prática e ainda vinculada aos conceitos de ponderação, sagacidade (capacidade de compreender por indícios, astúcia) e prática social. Não represente uma sabedoria conceitual ou teórica, senão a denominação seria Sofia: seu foco é nas atividades humanas. Podemos associar também a Phronesis (veja http://www.fronesis.org/) à capacidade "para identificar, definir e resolver problemas, compreender e interpretar a informação e cada situação de maneira holística, e tomas decisões visualizando a multicausalidade dos fenômenos, assim como as opções e as conseqüências de tais decisões". É saber bem escolher e deliberar. Associa-se ainda a compreensão, para si e para o próximo, do que é o bem em relação ao mal, algo na linha do mito de Adão e Eva quando caem no pecado original (em Genesis 3.1, a serpente astuta em grego era denominada como phronimos, forma adjetiva de phronesis).

A Coragem (Andreia no grego), depois referida como Fortaleza, refere-se a ser firme nas dificuldades, na constância de propósitos em busca do bem, e, como em Republica, conservar-se neles “no meio dos desgostos, dos prazeres, dos desejos e dos temores” que pode oferecer o futuro.

A Temperança (Sophrosyne), a “sensatez que ordena”, que faz prevalecer a vontade e o bom senso sobre as tentações dos prazeres e desejos, equilibrando e harmonizando o seu usufruto.

Por fim, a Justiça (Dikaiosyne), constituída pela posse do que pertence a cada um e a execução do que lhe compete, com em “A República”, dando-se o que é devido, voltada, portanto, à equidade, ao respeito pelas competências e direitos.

Em A República, Sócrates usa da analogia entre os indivíduos e as cidades para provar a existência de tais virtudes cardeais nestas, a partir do reconhecimento naqueles. Então me veio a idéia de fazer esta analogia, mas com as organizações. Como seriam as virtudes cardeais na gestão das organizações?

Não se trata de um campo incultivado, uma pesquisa ligeira já identificaria livros e outros trabalhos. Farei esta analogia sem a preocupação de um desenvolvimento mais aprofundado, e sim como um exercício, até porque não pretendo fazer comparações com estes pensadores, nem tem como. Assim,

Fronesis (prefiro usar este aportuguesamento): Está relacionada à capacidade de decisão e deliberação, resolução de problemas e também de previsão, sabendo ponderar dentre diversas alternativas e suas possíveis conseqüências e escolher a mais adequada tendo em vista o bem da organização, o que vai ser positivo à mesma. Está ligada também às organizações de aprendizagem, visto que aqui, mais ainda, cabe a aprendizagem como prática, e prática social. Cabe também a visão sistêmica, a compreensão do todo e a consciência de suas competências essenciais, capacitações dinâmicas e conhecimento de organizações ou instituições que sejam seus públicos de interesse (stakeholders).

Fortaleza: Está relacionada à constância de propósitos, tal como já dissera um dos chamados “Gurus da Qualidade”, William Deming. A constância de propósitos leva à firmeza da organização frente aos seus objetivos, a longo prazo, melhorando continuamente seus processos, não esmorecendo frente aos fracassos, mas aprendendo com eles. Também pode ser associada à Resiliência, já abordada em outro post.

Temperança: Fazer prevalecer o equilíbrio entre a razão de ser da empresa e as tentações da obtenção de lucros a qualquer preço, das maquiagens de balanço (vide o que aconteceu com o banco Panamericano), da concorrência predatória, das ambições desmedidas com relação ao mercado, da produção com a exploração da mão-de-obra, buscando a harmonia do uso dos recursos frente aos objetivos a alcançar, a eficiência e a eficácia, o satisfatório e não o maximizante, adaptando um raciocínio usado Herbert Simon em sua teoria das decisões. É desdobrar estratégias organizacionais com equilíbrio e prudência.

Justiça: Respeito aos diversos stakeholders, parceiros e concorrentes, considerando os direitos dos demais. Está na base dos princípios da Governança Corporativa, que é a teoria da agência: há de se garantir que o agente agirá sempre no melhor interesse do principal, ou seja, os gestores devem tomar decisões tendo em vista a riqueza dos acionistas que os contratam, e não maximizar sua riqueza pessoal. Portanto, a cada um o que é devido, o que lhe compete, observando a posse do que pertence a cada um, com equidade e transparência. A Responsabilidade Social e Ética também se enquadra nesta virtude, tendo em vista a consideração pelos direitos do outro na proporção do desenvolvimento dos seus próprios (da organização).

Bom, seria isso. Fica como uma proposta para um enfoque gerencial ético para as organizações. Cabem muitos desenvolvimentos em cima disto, como por exemplo, incluir as três virtudes teologais (fé, esperança e caridade), não cobertas objetivamente por Sócrates e seus discípulos diretos e indiretos, e não o faria no sentido formal da igreja, mas antes na essência moral destas. Deixo, portanto, o em aberto para as contribuições dos leitores, se assim desejarem.


Américo Ramos, DSc em Administração
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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Nunca te vi, sempre contigo aprendi?

Américo Ramos



http://biponline.prodeb.gov.br/adm/arquivos/linguagem%20oral_escrita.jpg

É sabido que, por exemplo, Pitágoras, Buda, Confúcio, Sócrates, Amônio Saccas, entre outros, passavam seus ensinamentos, ao menos preponderantemente, pela via oral. Coube a seus discípulos, diretos, ou indiretos, posteriormente registrarem os conhecimentos transmitidos. O mesmo ocorreu no Cristianismo.

Além disso, era prática corrente nas academias gregas da antiguidade o conhecimento ser transmitido por meio de diálogos, caminhadas (ser peripatético), reflexões compartilhadas oralmente.

Independentemente da alegação do caráter reservado que estes conhecimentos teriam, além do fato trivial de que não existia a imprensa (pelos registros históricos existentes) e a disseminação escrita não podia ser feita em maior escala, parece também que o entendimento do que era o conhecimento passava pela sua indução no outro (ver postagem anterior “conhecimento transferido e conduzido, ou refratado e induzido?” ) por meio de reflexões compartilhadas, ou por infusão, como um sache de chá, se for tomado Tomás de Aquino como referência. O registro escrito não teria este mesmo poder, esta transformação interior, este caráter pessoal, seria uma mera informação. Logo, isto poderia fundamentar a superioridade do conhecimento tácito, vinculado à experiência pessoal, sobre o conhecimento explícito, como deflagrador de processos de aprendizagem. Afinal, a palavra falada acelera muito mais a aprendizagem do que a escrita, esta tem que ser digerida mais lentamente, não há interação, e a falta de vivência implica um risco muito maior de esquecimento, ou de mera memorização. Eu, como professor ou palestrante, se me sinto à vontade em um assunto, tenho os registros mais como um roteiro, mas caso contrário, corro o risco de ser bem mais artificial no que falo e tenho os meus escritos, neste caso, como bem mais do que um roteiro.

Entretanto, não se imagina que a transmissão do conhecimento tenha se dado com tamanha desenvoltura até os dias de hoje sem a palavra escrita, sem a transmissão, armazenamento e recuperação de conhecimento explícito, sem o upload e o download. Saber-se-ia tanto sobre o legado de Pitágoras, Sócrates e outros, não fosse o registro? Ou ainda, o registro permite massificar o exotérico, mas não o esotérico, reservado para os “iniciados” que de fato incorporam a palavra de seus mestres ao seu conhecimento pessoal (ver a diferença entre as duas palavras aqui)?




Poderia ser alegado também que a transmissão oral de conhecimento, principalmente ao longo do tempo, seria facilmente deturpável. Todavia, a palavra escrita tem tal garantia? Há tantos exemplos de deturpações dos escritos antigos, de quantos pontos foram acrescentados ou retirados aos contos! Além disso, talvez os antigos defensores da transmissão oral quisessem expressar que o conhecimento pode ser em essência um só, mas se materializa na pessoa em sua experiência, não sendo propriedade em si mesma. Estaria relacionado ao que Michael Polanyi, inspirador da Gestão do Conhecimento propulsionada por Nonaka e Tageuchi (ver postagem anterior “conhecimento transferido e conduzido, ou refratado e induzido?”) e consumida pelo Mundo Corporativo, reforçou em termos do Conhecimento Pessoal, algo construído socialmente pelos indivíduos em seu contexto ambiente e que abrange ainda aspectos emocionais, constituindo-se em uma experiência ativa e intencional.

Com relação ao jogo nem sempre transparente entre o oral, o escrito e a transmissão de conhecimento, há ainda os rituais como forma de “fixação”. Os rituais surgem como representações não escritas, depois são registrados, padronizados, entronizados, congelados, e no final, muito pouco a grande maioria termina por saber sobre eles. Se a transmissão fosse mais direta, entrando na alma do receptor como uma vacina na corrente sanguínea (aliás, é interessante saber que Miguel Servet vinculava a alma ao sangue, assim como já era dito no Levítico, terceiro livro do Pentateuco bíblico, 17/11: porque a alma da carne está no sangue), seria melhor?

Ainda sobre o falar e o escrever, admiro aqueles que “falam como se estivessem escrevendo”, ou melhor, que colocam em seu discurso de forma natural e sem interrupções o que faria de forma escrita, parando, analisando, verificando. Claro que quem discorre de tal forma tem um raciocínio muito mais apurado e aprofundado e, caso tenha a habilidade de passar sua mensagem a públicos de diferentes estágios de compreensão, com o domínio absoluto das possibilidades que este conhecimento encerra. Algo como a passagem dos evangelhos em que Jesus estabelece junto a seus discípulos a diferença entre as parábolas que conta ao povo e as explicações mais diretas que lhes dava reservadamente (Mc 4, 33,34).

Ora, parece que há espaço para os dois tipos de conhecimento. Em tudo que se refere à técnica, supõe-se que o conhecimento explícito é indispensável como receptáculo de idéias e realizações, ainda que a habilidade do artífice, seja de que natureza for, venha a ser burilada pela experiência pessoal. Já no mundo das idéias, seja na filosofia, política, cultura, educação e na prática da liderança e de transmissão de conhecimento gerencial, talvez o conhecimento pessoal e a transmissão oral seja algo a ser mais resgatado e reforçado.

Reconhece-se que o mundo corporativo não ignora isto atualmente. Tem-se as tutorias, os feedbacks e feedforwards, as comunidades de práticas, todas de alguma forma valorizando o conhecimento e aprendizagem pela interação. Ah, não pode ser esquecida a prática de lições aprendidas, que é uma maneira interessante, se bem feita, de explicitar, parcialmente, é forçoso reconhecer, o conhecimento tácito apreendido de experiências diversas.

Além disso, a era pós-internet e redes sociais (vejam o filme sobre o assunto que irá estrear nos cinemas brasileiros em dezembro no qual se diz – quem diria? – que um brasileiro foi enganado por um americano ) tem trazido uma forma bem diferente de se buscar e disseminar conhecimento ... mas há quem diga o contrário!

Em entrevista disponibilizada recentemente, o professor Thomas Pettitt, professor de história da cultura na Universidade do Sul da Dinamarca, defende que as novas mídias levam a humanidade de volta a era pré-Gutemberg, da cultura oral (leia aqui). “E como se estivéssemos falando pelos dedos”, diz o professor. È que o repositório de conhecimento deixou de ser algo estático e passou a ser facilmente rastreável, discutível, interativo, com a era digital. A linguagem passa a ser mais próxima da palavra. Conversamos por chat ou por imagens de qualquer lugar do mundo, como se próximos estivéssemos. Assim, por um exercício de imaginação, conceber-se-ia uma Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles, a Academia Neoplatônica de Alexandria, virtuais? Aristóteles, que gostava de ensinar pelo modo peripatético, caminhando com seus discípulos enquanto discorria sobre as mais variadas idéias, poderia hoje usar o ”Second Life”?

Por outro lado, Dominique Wolton, Sociólogo da comunicação e diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica (Paris), deu também uma entrevista, divulgada na mesma época do que a anterior, em que considera as redes sociais uma forma de comunicação muito frágil com relação à coesão social, pois falta às pessoas se encontrarem fisicamente: “aí reside toda a grandeza e dificuldade da comunicação para o ser humano ... podemos passar horas, dias na internet e sermos incapazes de ter uma verdadeira relação humana com quer que seja”. É o que ele chama de “solidão interativa”. Assim, a interação verdadeira não seria a da internet, não seria aquela que desperta emoções genuínas, e com isso, viabilizar o conhecimento pessoal do qual falava Polanyi.

Bom, penso que as questões, a princípio contraditórias, levantadas pelos dois pensadores citados, não a são, se melhor examinadas. Até há bem pouco tempo atrás, a transmissão oral e mesmo o contato visual eram intrinsecamente ligados à aprendizagem e à indução de conhecimento pessoal. Hoje não é mais. O desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação mudou dramaticamente este quadro. Assim, pode haver transmissão direta, oral inclusive, e mesmo contato visual remoto, sem necessariamente garantir a possibilidade de um aprendizado e indução de conhecimento pessoal. Ponho em dúvida ainda esta questão, pois não quero afirmar uma impossibilidade, já que caberia aqui uma continuidade de raciocínio que ainda não foi amadurecida suficientemente.Me veio agora a lembrança do filme Nunca te vi sempre te amei, que mostra como o afeto e a amizade podem se desenvolver genuinamente em uma época em que apenas (?) havia cartas, sem as pressões pelas abreviações e limites de 140 caracteres. Meu sobrinho conheceu sua atual esposa pela internet. E nem toquei diretamente nos internet affairs, ou cursos à distância e por satélite ... mesmo com os tutores .

No final das contas, nesse mundo informatizado, está faltando resgatar algo mais da transmissão direta do conhecimento. Desenvolver o explícito foi o mais fácil, mas com a conseqüência de uma hipertrofia desta modalidade de conhecimento como transmissão, o que é um erro, que, como se viu aqui, pode ser evidenciado pela própria história da humanidade e de seu pensamento. Desde há algum tempo há de se partir para a construção de um conhecimento pessoal e aprendizagem interativa baseada em paradigmas que transcendam distâncias e olhares. Será isto possível? Um desafio? Ainda assim, não se pode perder de vista o mais simples e, ao mesmo tempo, o mais complexo: a interação humana em todos os seus sentidos.



http://www.consciencia.net/internet-e-politica/

Américo Ramos, DSc em Administração
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domingo, 7 de novembro de 2010

Burocratas, fariseus organizacionais e aprendizagem limitada







































Américo Ramos


“Mas ai de vós, fariseus! Porque dais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças e desprezais a justiça e o amor de Deus; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Lc, 11-42)

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do entro e do cominho, e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei, a justiça, a misericórdia e a fé; deveríeis fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (MT 23-23)

Dentro da tradição cristã, os fariseus eram criticados por se aferrarem à observância de preceitos e rituais e censurarem o que não estava em conformidade a isto, mesmo que fosse para a prática da virtude, da salvação, enfim, do bem. Dominavam o conhecimento procedimental, mas afastavam-se da essência.

Nota-se que no trecho que destaquei aqui do evangelho, seja de Mateus como de Lucas, que Jesus não deixava de reconhecer a execução dos rituais e procedimentos já consagrados, desde que não se esquecessem da essência pela qual foram elaborados e são sua finalidade.

O que me veio à mente então? A crítica à burocracia nas organizações, não à burocracia em si, mas às suas disfunções, quando os “meios são mais importantes que os fins”. Mesmo porque, sem burocracia, em seu conceito, uma organização perde a sua memória, o seu conhecimento, e inutiliza sua capacidade de aprendizagem. É como se, para usar um exemplo clássico, tivéssemos que reaprender diariamente nossas rotinas mais banais (“até nas coisas mais banais”, como diria Cazuza), como escovar os dentes. Imagine uma organização como no filme “Amnésia” . Uma resenha do filme por Norma Cortês, historiadora e doutora pela IUPERJ, pode ser lida aqui.

O termo “burocracia”, dentro das teorias de ciências sociais e das organizações, tem como propulsor principal Max Weber e cujos insights foram tomados por outros cientistas sociais, décadas depois, destacando-se, aqui, Robert K. Merton.

Para uma explicação, ou recordação (para quem estudou Administração) da teoria da burocracia, o site da Wikipédia dá uma primeira idéia. Destacam-se aqui as disfunções da burocracia enunciadas por Merton.

Assim, os ditos burocratas, são aqueles que se proclamam defensores das normas organizacionais, mas na verdade são agentes das disfunções acima citadas. Assim, vêem a forma da norma acima de sua essência e finalidade. É preciso seguir as normas e procedimentos, sem jamais esquecer as finalidades para as quais foram criados dentro da organização, bem como seus resultados, seus valores, sua missão etc. Assim, esses burocratas são fariseus organizacionais.

Quando tive a idéia para postar este artigo, lembrei-me de um texto de uns dez anos atrás, publicado na revista Exame e escrito por uns dos pensadores brasileiros em Administração mais brilhantes e mediáticos que nós temos, o Thomaz Wood Jr., em que dissertava justamente sobre a necessidade da burocracia, apesar de seus problemas, com o sugestivo título “A burocracia está morta: viva a burocracia!"

Wood Jr. aproveita para inserir a problemática da ISO 9000, bem mais ardente na época, como o retorno do “monstro burocrático”, que junto com os sistemas integrados de gestão, espalham “controles e procedimentos por toda a empresa” e gerando “vítimas” com o “engessamento” da organização à custa de uma “futura utilização em campanhas promocionais”.

Aliás, durante as revisões da ISO 9000, pretendeu-se, inclusive, resgatar a essência da qualidade, evitando-se a preocupação excessiva com a forma, pelo menos pareceu ser esta a intenção. Um auditor da ISO 9000 mais policialesco e formal é um típico fariseu no sentido pejorativo que se deu conhecimento, pois mantinha alerta sobre qualquer não conformidade, considerando-o uma espécie de pecado ainda que esta não conformidade pudesse estar resolvendo algum problema organizacional. Empregados cumpriam procedimentos sem saber para que serviam, como fiéis que enunciam orações e rituais sem saber porque estão fazendo isto.

Voltando, agora à aprendizagem. A burocracia é um meio de consolidar o conhecimento explícito e a aprendizagem, sim, desde que tenha como parâmetro os objetivos e o desenvolvimento da organização, em prol de sua sustentabilidade com o tempo, em termos de desempenho, valor e sinergia (ver meu artigo “A dimensão biopsicossocial na acumulação de riqueza, no progresso técnico e na construção social das organizações”). A diferença entre a aprendizagem em uma organização burocrática disfuncional e a que não é corresponde à diferença entre a aprendizagem de primeiro ciclo, mais limitada e restrita, e de segundo ciclo, mais questionadora e inovadora, conforme cunhado por autores como, por exemplo, Argyris e Schon, e já tratado em outras postagens, como em Saúde e estética: como no indivíduo, entre a sustentabilidade e a imagem.


Chamo a atenção também para uma questão levantada por um pensador organizacional americano dos mais destacados, Karl Weick. Em parceria com Westley, afirmou que a aprendizagem organizacional é um oximoro, pois se “aprender é desorganizar e aumentar a variedade”, “organizar é esquecer e reduzir a variedade”. Discorrer sobre a aprendizagem organizacional se torna viável caso sejam associadas as organizações a culturas (linguagem, artefatos e rotinas de ação). A linguagem é vista como instrumento e repositório da aprendizagem, que ocorre via interação social.

A aprendizagem é entendida por Weick e Wesley como uma evidência da experiência contínua, conectando ordem e desordem e permitindo que a organização e sua identidade mudem a partir das inovações trazidas pelos questionamentos inerentes ao processo de aprendizagem. Assim, “afirmar o oximoro da aprendizagem organizacional é manter a organização e a aprendizagem conectadas, a despeito de se moverem em direções opostas” (WEICK; WESLEY, 1998, p. 385).

Manter a organização e a aprendizagem conectadas e permitir a mudança e inovação representam dar um sentido ativo à própria burocracia nas organizações. Assim, seus agentes usarão as regras e procedimentos tendo em vista a essência organizacional em interação constante com suas circunstâncias, parafraseando Ortega y Gasset e sua frase "O homem é o homem e a sua circunstância". Mas é importante notar que Ortega Y Gasset frisa que “é, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias». Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide é o nosso caráter” (ver aqui). A burocracia, mudando ou não, rodeia as organizações como circunstâncias, mas quem decide são as pessoas e seu caráter para discernir o que é mais correto à organização, e este “caráter” coletivo é formado por um contínuo e denso processo de aprendizagem.

Américo Ramos , DSc em Administração.
E-mail: americodacostaramos@gmail.com.
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Jornada de Administração: Gestão em Foco


A Universidade Candido Mendes de Niterói recebe nos dias 10 e 11 de novembro, quarta e quinta-feira, a Jornada de Administração e Gestão em Foco. Serão dois dias de palestras com foco no atual mercado da Administração.

Abrindo o evento no dia 10, às 19 horas no Tribunal do Júri do 10º andar, o professor Américo da Costa Ramos Filho, Doutor em Administração, debaterá o tema “Aprendizagem Gerencial de Multinacionais Brasileiras com suas Aquisições Internacionais”. Logo em seguida, às 19h30 no Auditório do 10º andar, o tema da palestra será “Empreendedorismo / O impacto do COMPERJ nos Onze Municípios do Entorno”, com a palestrante Mirella Marchito Conde do SEBRAE, mediada pelos professores André Vidal Perez e Francisco Fernandes Neto.

No dia 11, acontecerão palestras simultâneas, deixando o participante à vontade para escolher a que mais lhe interessar. Às 19 horas no Auditório, o professor, economista e contador, Edimilson Lins Machado fala sobre “Planejamento Tributário e Fisco Digital”. Também às 19 horas, mas no Tribunal do Júri, o professor Júlio César Albuquerque Bastos apresenta “Uma Análise da Influência da Credibilidade Sobre o Spread da Curva de Juros no Brasil”.

Fechando a Jornada, às 20h30, no Auditório, “A Teoria dos Jogos na Administração” será debatida pelo professor Claudio Crespo. Ao mesmo tempo no Tribunal do Júri o tema “Gestão de Processos” será palestrado pelo professor José Alexandre Costa Alves.





quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Resiliência, sofrimento e aprendizagem.


Fonte: audiolist.org


Américo Ramos.


A Resiliência tem sido uma palavra da moda do mundo corporativo, de uns tempos para cá.

A resiliência cobre vários significados. Por exemplo, da Física,

... se refere à propriedade de que são dotados alguns materiais, de acumular energia (mais, ver aqui).

Na Psicologia,

... como a capacidade do indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos, ou resistir à pressão de situações adversas - choque, estresse etc (mais, ver aqui).

E ainda, na Ecologia,,

... capacidade de um sistema restabelecer seu equilíbrio após este ter sido rompido por um distúrbio, ou seja, sua capacidade de recuperação (mais, ver aqui).

No campo das organizações, poderia disponibilizar um número infindável de referências sobre o assunto. Vou citar aqui dois, não necessariamente os mais importantes, mas que dão uma idéia sobre o tema, um do ponto de vista mais empresarial/consultoria, outro do ponto de vista mais acadêmico.

O primeiro vem de Eduardo Carmello, Diretor da Entheusiasmos Consultoria em Talentos Humanos, autor do livro "Resiliência: a transformação como ferramenta para construir empresas de valor". Ele resgata a origem etimológica do termo, que significa "impulsionar novamente para", ou poderia eu dizer, um resgate energético, buscando forças sempre que for necessário. Além do seu site e livro, vale também conhecer uma entrevista dele a Catho (ver aqui).

O segundo trata de uma tese de Doutorado em Administração, pela FGV/EAESP, de autoria de Fernando Job, intitulada "Os Sentidos do Trabalho e a Importância da Resiliência nas Organizações". Algo diverso de Carmello, ele aprofunda mais o sentido de sofrimento associado à resiliência, em particular, o relacionado ao trabalho nas Organizações. Um artigo prévio à tese, bem mais resumido, encontra-se aqui.

Apesar das controvérsias, caso se leia os textos acima, resiliência e sofrimentoparecem convergir. Entretanto, para buscar reunir os argumentos, a questão da resiliência está mais ligada ao sofrimento ativo, ou ver o sofrimento como agente de mudança e, em níveis mais adiantados, para prevê-la. É ver o sofrimento, ou a “perturbação no equilíbrio”, o eufemismo que se queira dar, como algo que faça parte da vida, até mesmo algo que se possa agradecer por nos ajudar a crescer, seja individual ou coletivamente, em caso de grupos/organizações. Algumas doutrinas ou religiões, inclusive, consideram o sofrimento, de certa forma, sob este prisma, ainda que nem sempre de maneira tão direta. E ao ver o sofrimento/perturbação/desafio como algo natural na vida, sua superação e convivência ativa com a ajuda da resiliência como capacidade humana só pode se dar com uma abertura constante para a ... aprendizagem contínua, consolidando, melhorando e transformando padrões, hábitos e crenças.

Diz-se que se aprende pelo amor ou pela dor. Se usarmos o jargão corporativo, pela “conscientização valorativa do ser humano”, ou pelo “sistema de incentivos e conseqüências”. O primeiro opera-se no plano das idéias, o segundo no plano das sensações, usando, com algum grau de liberdade, as formulações do grande Platão.


Sendo agora um pouco mais aristotélico, chegar diretamente pelo plano das idéias fica um pouco, como dizer, “ideal” (desculpe-me o trocadilho), daí ter-se a referência sensível, adquirida pela experiência, ainda que sujeita a uma série de variações segundo o sujeito e o contexto, que não daria uma visão absoluta ou “matemática” tão cara a Platão (afinal, na sua academia havia uma inscrição de que não entrasse aquele que não soubesse Geometria).


Bom, em termos mais diretos, aprender pelo amor ou pela conscientização é o ideal, mas na vida cotidiana (tomando um termo bastante utilizado por Berger e Luckman) aprende-se mesmo pela experiência, não sem, na maioria das vezes, sem alguma dose, em maior ou menor grau, de sofrimento, de dor. E se isso passa a ser condição geral, a atitude a ser adotada no sentido de melhor aproveitar e atrair aprendizagem é a de resiliência, em que a parte dita ruim do sofrimento, que se não administrada leva a estresse, a angústia, à perda da criatividade e da capacidade de agir, para não dizer de conseqüências piores e sabidas, pode ser depurada, transformada, essencializada para ser um alavancador de crescimento, de evolução, de conhecimento, de superação.


Portanto, aprendizagem e resiliência são atributos que se interagem fortemente no sentido da mudança e do convívio com a experiência diária, os prazeres e sofrimentos nela implícitos (Aristóteles de novo), até mesmo para que as idéias e a conscientização do que aprendeu possam ser mais rapidamente internalizadas e, assim, serem usadas como reserva potencial de ações e decisões futuras, seja no plano pessoal, seja nas organizações.


Américo Ramos , DSc em Administração.
E-mail: americodacostaramos@gmail.com.
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